UM BRINDE A RIOBALDO

Waldecy Tenório

Quem é ele? Eis o que ele mesmo diz: “A gente sabe mais, de um homem, é o que ele esconde.” Então, quem é ele e o que esconde de nós? Podemos começar pela primeira parte da pergunta: Riobaldo é o personagem central de Grande Sertão: Veredas, um dos mais importantes romances da literatura brasileira, escrito por João Guimarães Rosa e publicado em 1956. Depois disso, digamos que o romance teve inúmeras edições e foi traduzido para inúmeras línguas. O que mais? Desde logo Grande Sertão: Veredas chama atenção pelo experimentalismo linguístico, ao adotar a dicção própria dos jagunços do sertão mineiro. Chama atenção também porque se estrutura como um diálogo entre o narrador, o próprio Riobaldo, e um interlocutor que nada responde, transformando o diálogo num monólogo em que Riobaldo rememora a aventura de sua vida.

Suas lembranças se abrem para duas veredas: o poder e o amor. O poder se expressa nos bandos de jagunços que guerreiam entre si e contra o governo desde o norte de Minas, passando por Goiás até o sul da Bahia, explicitando os problemas políticos e econômicos da época. Riobaldo, afilhado de um pequeno fazendeiro, cuja propriedade herdará depois, para viver ali sua velhice, adere, quando jovem, ao bando de um famoso chefe de jagunços, Joca Ramiro, e vira uma lenda pela coragem na hora de enfrentar os outros jagunços que o temem, e a quem chamam de Urutu-Branco, Tatarana, ou lagarta de fogo, pela pontaria mortal do seu rifle.

Quem sabe direito o que uma pessoa é ?
(Riobaldo em Grande Sertão: Veredas)

A outra vereda, o amor, começa quando Riobaldo, ainda menino, passeando pela margem do São Francisco, conhece outro menino que diz chamar-se Reinaldo. O tempo passa e, anos depois, eles se encontram no bando de Joca Ramiro. Os dois se aproximam, nasce uma grande amizade. Reinaldo, filho de Joca Ramiro, também se destaca pela coragem nas batalhas, razão pela qual os dois se aproximam ainda mais e se tornam amigos inseparáveis. “E foi assim que a gente principiou a tristonha história de tantas caminhadas e vagos combates , e sofrimentos, que já relatei ao senhor”.
 
Mas Reinaldo tem um segredo, não é um rapaz, como Riobaldo pensa, é uma moça. Lembrando certas histórias medievais, ela esconde o seu sexo, finge ser homem para lutar ao lado do pai. Ninguém desconfia, nem os outros jagunços, nem mesmo Riobaldo que, no entanto, em certos momentos, surpreende nos olhos verdes de Reinaldo um jeito, uma ternura e uma delicadeza que não combinam com o modo de ser jagunço.

O tempo passa outra vez. Uma noite, em meio a uma trégua nos combates, uma lua tão sedosa que Riobaldo a chama de lualã, Reinaldo se aproxima, por pouco não pega as mãos de Riobaldo, e lhe confia um segredo: “Pois então o meu nome verdadeiro é Diadorim”. Mas Riobaldo só poderá chamá-lo Diadorim quando os dois estiverem sós, para os outros ele continua sendo Reinaldo. Dias depois, numa batalha terrível, bandos de jagunços se juntam para enfrentar os de Joca Ramiro. Bala pra todo lado, zunindo. Uma delas atinge o chefe, e ele morre.

Diadorim jura vingar o pai. Mostra-se cada vez mais corajoso, sempre ao lado de Riobaldo. Os bandos inimigos ganham reforços. Outra batalha sangrenta. Os tiros não param. Riobaldo e Diadorim resistem na maior coragem. Diadorim se expõe. Acerta e mata os assassinos do seu pai. Expõe-se mais ainda. Temerário, quer acabar com o bando inteiro. De repente, cai, o peito correndo sangue. Uma bala acertou seu coração. Riobaldo redobra a resistência, atira como um doido, mata um após outro, vingando Diadorim. Depois leva o corpo para que as mulheres o preparem para a sepultura. Quando elas o despem, uma surpresa: Reinaldo (Diadorim) é mulher. “Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, e a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata... E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo: Meu amor”, resumindo nesse vocativo as dores e as alegrias próprias de nossa condição humana.

Hoje essa voz ainda ressoa em nossos ouvidos: “Narrei ao senhor. No que narrei, o senhor talvez ache mais do que eu, a minha verdade”.
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